Produzindo a HQ A Samurai — Episódio 3

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Oi, eu sou a Mylle Silva e esta é a série “Bastidores de produção”, na qual falarei sobre produção cultural.

Nesta temporada, contarei sobre a minha experiência mista de produção e aprendizado durante a execução do projeto A Samurai.

A Samurai é uma série de história em quadrinhos que conta a saga de Michiko, uma jovem poderosa que se torna samurai para lutar pelo sonho de encontrar sua família biológica.


Continuações são sempre complicadas. Nada garante que o leitor da primeira parte da história vá acompanha-la até o final, e há uma série de fatores que influenciam nisso: quebra de expectativa, falta de grana, desinteresse, não saber que a história continua ou simplesmente o bom e velho “depois eu procuro”. É claro que eu não sabia de nada disso quando decidi continuar a história da Michiko, numa ingenuidade que se quebrava a cada dia, à medida que ficava claro que aquele projeto não seria financiado sem uma ajudinha.

A ajudinha de que estou falando foi, é claro, completar o valor no Catarse com a grana que havia juntado com as vendas do primeiro volume. Assim, praticamente tudo que recebi dos 10% da distribuição de A Samurai nas bancas foi investido na impressão de A Samurai: Yorimichi. Hoje compreendo que foi uma troca justa, mas, na época, teve sabor de derrota. Fui incapaz de enxergar a beleza do que havia conquistado: que, apesar das coisas não terem acontecido como eu esperava, estava lançando a continuação d’A Samurai.

A Samurai: Yorimichi foi lançada na CCXP e na Gibiteca de Curitiba, em dezembro de 2016. Apesar dos sorrisos nas fotos, eu estava chateada, no meio de uma crise de impostora.

Estou contando os percalços do caminho porque sei que são nesses tropeços que muitos artistas se esborracham no chão e não conseguem mais levantar. A gente espera que nossa carreira seja uma escada, que o próximo lançamento seja melhor recebido do que o anterior, quando na verdade vivemos numa montanha-russa. Mas, ao ver que A Samurai: Yorimichi tinha chamado muito menos atenção do que a edição anterior, eu não sabia nada disso e comecei a duvidar do potencial da história e ter medo de apostar em voos mais altos.

Pode parecer contraditório falar que deixei de apostar na saga da Michiko se no ano seguinte, em 2017, lancei um spin-off da história com a ajuda do Catarse; mas uma série de decisões nessa HQ representam meu medo de seguir em frente. O lado bom é que, depois de levar umas porradas da vida, fui capaz de fazer a minha melhor campanha de financiamento coletivo.

Em 2017, já reconhecendo o potencial da personagem Michiko, eu não queria perder o ritmo do trabalho que havia começado. Por isso, apesar de não ter coragem para produzir o último volume da trilogia, eu sabia que precisava seguir em frente com o projeto. Assim nasceu a ideia de fazer um spin-off, uma outra história com a Michiko, mas fora do plot central. Depois de pensar por um tempo, decidi que escreveria sobre a primeira batalha enfrentada pela samurai.

Nessa época eu ainda não tinha uma história em quadrinhos ilustrada do início ao fim por um único artista — e isso me incomodava um pouco. Então, em fevereiro de 2017, escrevi um roteiro de 50 páginas já com um quadrinista em mente, que já tinha aceitado o meu convite. Em conjunto, para diminuir os custos de produção, optei por um formato menor e por ilustrações em preto e branco. Criei novos personagens e uma trama fora da principal, mas que fazia referência a ela, como uma homenagem. Escrevi um roteiro com início, meio e fim e fiquei feliz com o resultado. Tinha atingido meu objetivo.

O ilustrador já estava com o roteiro quando me disse que não teria tempo para desenhar a história no prazo que eu pedia. Saí, então, perguntando para outros ilustradores se eles teriam interesse e disponibilidade para produzir e foi então que a magia aconteceu: algumas ilustradoras demonstraram interesse, mas disseram que não conseguiriam desenhar a história inteira. Por que não dividir o trabalho, como nas edições anteriores da Samurai?, a Chairim sugeriu. Foi assim que, com a mulherada aceitando participar do projeto, montei um time girl power com cinco ilustradoras: Renata Nolasco, Mary Cgnin, Chairim Arrais, Má Matiazi e Jéssica Lang. Com o time reunido e trabalhando nas páginas, em agosto de 2017 a campanha para financiar A Samurai: Primeira Batalha foi ao ar — e foi simplesmente um sucesso.

Com uma meta de dez mil reais e muitas imagens das HQs anteriores, foi fácil atingir o público. A equipe inteira também se envolveu com a campanha ao longo dos sessenta dias, falando sobre o projeto e produzindo as páginas dentro do prazo. Assim, bati a meta em quarenta e cinco dias e ainda consegui arrecadar mais cinco mil reais, o que me deu segurança para alçar novos voos.

A Samurai: Primeira Batalha foi lançada na CCXP de 2017, em dezembro, e no Dia do Quadrinho Nacional, em janeiro de 2018 na Gibiteca de Curitiba.

Foi também em 2018 que eu comecei uma nova fase: a de ministrante de oficinas de escrita e roteiro para histórias em quadrinhos. Depois de produzir A Samurai, senti que tinha reunido experiência suficiente para falar sobre como elaborar histórias e incentivar outras pessoas a produzi-las. Assim, com muito estudo, disciplina e uma ajuda da Michiko, a escritora tímida se tornou uma ministrante de oficinas. No entanto, a Michiko que tanto me presenteou, passaria quase três anos adormecida enquanto sua criadora navegava por outros mundos.

Apesar da experiência acumulada na produção de três HQs d’A Samurai, eu ainda tinha receio de me aventurar numa campanha de valor alto — desafio que seria necessário, caso eu quisesse concluir a trilogia naquele momento. Somado a isso, estava com medo de me tornar autora de uma história só enquanto novas ideias borbulhavam dentro de mim. Foi assim que decidi me dedicar a outras histórias e buscar outras formas de financiamento para concluir a trilogia.

Já fazia um tempo que eu estava no jogo de tentativa e erro (errando mais do que acertando) dos projetos de lei de incentivo. O trabalho é parecido com o de uma campanha de financiamento coletivo, mas ao invés de pedir dinheiro aos leitores, você submete sua ideia a uma banca de pareceristas que decidirá se você pode receber recursos públicos para realizar o projeto. De 2014 a 2018 eu errei várias vezes, até que no final de 2019 comecei a acertar: tive meus primeiros projetos convocados — um deles, inclusive, de quadrinhos.

Em paralelo a isso, segui em frente com as oficinas de escrita e viabilizei outras duas histórias em quadrinhos — Doce Jazz e Zahira — com a ajuda do Catarse. E foi assim, nesse contexto de riqueza criativa, que no final de 2020 me senti segura para sonhar com a conclusão da trilogia d’A Samurai.

Com os editais emergenciais da Lei Aldir Blanc abertos, vi uma oportunidade de produzir o terceiro volume da série sem depender do financiamento coletivo. Essa seria, aliás, a minha terceira tentativa de inscrever A Samurai em uma lei de incentivo — as duas primeiras não deram certo, mas me deram aprendizados. Assim, experiente e confiante, fui conversar com cada um dos ilustradores do meu time dos sonhos.

O tempo pode mudar muitas coisas na vida de um artista, inclusive suas prioridades. Mas, para a minha sorte, a maioria aceitou retomar o projeto — inclusive o Vencys Lao me contou que, no dia anterior ao meu convite, comentou em uma live que estava esperando eu o chamar para terminar A Samurai. Encarei isso como uma premonição e entreguei a ele tanto o último capítulo de Sujimichi quanto a capa.

Dos oitos ilustradores do time dos sonhos, seis aceitaram retomar o projeto — o que me deu a chance de incluir dois novos nomes a trilogia: Mary Cagnin (que já tinha participado da Primeira Batalha) e Caio Yo.

Com o novo time reunido, percebi que havia uma questão no edital: caso passasse, poderia produzir apenas a edição digital. Se eu quisesse uma edição impressa, teria que arranjar dinheiro de outra forma. Não vi problema nisso, afinal o importante era ter a grana para pagar a produção.

Depois de mais de um mês de espera, chegou o resultado: o projeto para produzir A Samurai: Sujimichi havia sido aprovado (e com nota máxima, só para registrar). Com o dinheiro garantido, era só sentar a bunda na frente do computador e começar a trabalhar.

Escrevi o roteiro de A Samurai: Sujimichi em janeiro de 2021. Comparado com os roteiros anteriores, esse foi o mais técnico e completo, o que contribuiu para que o resultado final das páginas ficasse muito próximo ao que eu havia imaginado. Eu queria dar o grande final que essa história merecia, então depositei todos os meus estudos sobre escrita no roteiro — e, sinceramente, fiquei bem satisfeita com o que escrevi.

Com o roteiro pronto e equilibrado, a produção das páginas foi tranquila. Claro que optei por seguir a mesma estética das edições anteriores — uma cor predominante e um traço diferente a cada capítulo —, exceto por uma surpresa no capítulo final.

Entre idas e vindas, diagramações e revisões, A Samurai: Sujimichi ficou pronta no final de maio. Mas, antes de finalmente mostrar a conclusão da saga da Michiko ao mundo, restava uma última batalha: a campanha de financiamento coletivo para viabilizar a edição impressa.

No dia 13 de outubro de 2021, lancei a edição digital de A Samurai: Sujimichi, que pode ser acessada e lida de graça no site asamurai.com.br. No mesmo dia, lancei uma campanha de financiamento coletivo para levantar o dinheiro para imprimir essa história e completar a história nas estantes dos leitores. Enquanto gravo este podcast, estou na metade da campanha, sem fazer a mínima ideia se será trazer A Samurai: Sujimichi para o mundo material. Estou envolta de dúvidas, mas ao mesmo tempo orgulhosa e grata pelos aprendizados proporcionados ao longo da produção da saga da Michiko.

Há certa beleza na incerteza. Sonhar, escrever, produzir, publicar e encontrar leitores é um treino contínuo que desafia minha resiliência e me lembra sempre que a ansiedade nunca poderá prever o próximo dia, seja ele de conquistas ou derrotas.

Se você, que me ouve agora, apoiou o meu trabalho em algum momento, saiba que você é parte dessa história. E se você está chegando agora, não se acanhe: visite asamurai.com.br para conhecer a Michiko e a sua história.


Obrigada por ouvir até aqui! Este foi o último episódio da temporada, espero que tenha gostado!

“Bastidores de Produção” é um podcast produzido pela Têmpora Criativa. A primeira temporada é parte do projeto A Samurai: Sujimichi, um PROJETO REALIZADO COM RECURSOS DO PROGRAMA DE APOIO E INCENTIVO À CULTURA – FUNDAÇÃO CULTURAL DE CURITIBA, DA PREFEITURA MUNICIPAL DE CURITIBA E DO MINISTÉRIO DO TURISMO.

O texto e a narração são de Mylle Silva; já a edição e a música são de Cássio Menin. Visite temporacriativa.com e conheça mais sobre o nosso trabalho.