Produzindo a HQ A Samurai — Episódio 2

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Oi, eu sou a Mylle Silva e esta é a série “Bastidores de produção”, na qual falarei sobre produção cultural.

Nesta temporada, contarei sobre a minha experiência mista de produção e aprendizado durante a execução do projeto A Samurai.

A Samurai é uma série de história em quadrinhos que conta a saga de Michiko, uma jovem poderosa que se torna samurai para lutar pelo sonho de encontrar sua família biológica.


Com dinheiro garantido e a equipe disposta, era chegada a hora de trabalhar. Quem propõe projetos no Catarse sempre determina um prazo de entrega, fator que se torna parte do contrato de confiança entre criador e apoiador. A promessa era começar as entregas em novembro, mês que aconteceria, naquele ano, o Festival Internacional de Quadrinhos, conhecido como FIQ. O ideal seria ter todas as páginas prontas em outubro, para que a diagramação e os possíveis retoques pudessem ser feitos sem atropelos — o que deixou a equipe com quatro meses de produção.

A Samurai, como mencionei no episódio anterior, tem dois diferenciais: cada capítulo tem um traço e uma cor diferentes. Além disso, ao longo da história, Michiko ora está vestida como gueixa, ora como samurai. Somados, esses fatores dificultaram, e muito, a caracterização da personagem. Ao ter oito artistas trabalhando, cada qual com seu estilo, era preciso ter um coordenador, uma figura que centralizasse a produção e direcionasse os demais: foi assim que Yoshi Itice se tornou o diretor de arte do projeto. Ele fez o design dos personagens, dos cenários e coordenou a produção das páginas comigo — e foi nessa fase que eu finalmente aprendi como era produzir uma história em quadrinhos.

Antes d’A Samurai, eu nunca tinha sequer me imaginado escrevendo histórias em quadrinhos. Sempre adorei animação, mangás, quadrinhos dos outros, mas era algo do outro, não para mim. Por isso, à medida que o projeto foi ganhando forma, tive que aprender como era fazer uma história em quadrinhos — e, de quebra, como era produzir um trabalho autoral em equipe. Assim, além de descobrir e aprender a lidar com o meu novo processo de produção, eu estava lidando com outros oito processos — cada qual com suas particularidades, seus tempos de produção e seus prazos de entrega.

Por isso, ao invés de ver a HQ nascendo toda pronta e ordenada, como acreditei por um breve momento, o que aconteceu de fato antes de eu receber o material finalizado para começar a diagramação, foi um vai e volta de esboços, quadros e páginas inacabadas. Eu estaria perdida, pois não sabia o que esperar do processo de produção, se não fosse a companhia de ilustradores competentes e experientes nessa fase — companhia que foi crucial para o meu aprendizado.

E bem, posso dizer que aprendo rápido. Foi nesse momento que conheci uma das maiores felicidades na vida de um roteirista de quadrinhos: ver nascer, página a página, as cenas que imaginou. Não existe momento mais glorioso do que a primeira vez que olho para uma sequência de quadros e leio a minha história nela. É como uma vitória, um encantamento, uma conquista que ninguém me tira: sonhar uma história a ponto de alguém lê-la e desenhá-la. Acredito que esse encanto acontece porque, por mais que eu tenha escrito todo um roteiro e descrito os quadros, eu ainda não sei como o ilustrador resolverá a narrativa gráfica. Já que eu não desenho, vivo esse mistério, essa expectativa que se repete a cada novo roteiro — e que experimentei pela primeira vez produzindo A Samurai.

Outro processo que aprendi nessa ocasião foi o de reescrita das falas. Depois que as páginas ficam pronta, eventualmente algumas falas não se adequam bem às expressões dos personagens — e é até melhor assim. Como já disse, produzir um roteiro é um trabalho autoral em equipe, um trabalho em que todos os envolvidos somam de alguma forma. Às vezes, o ilustrador sugere novas falas e quebras de balões; outras, eu leio a HQ e modifico as falas sem alterar o sentido. Por isso, a reescrita de um quadrinho só termina depois que todas as páginas estão prontas e as falas, revisadas.

Depois de uma série de alterações, cinco versões da capa, revisões e ilustradores que esticaram um pouco mais o prazo de produção, A Samurai foi para a gráfica em novembro, uma semana antes do FIQ. Contando a história assim, em retrospecto, parece que tudo se encaixa, mas a verdade é que enquanto a edição impressão não chegou da gráfica, era impossível saber se eu conseguiria entrega-la dentro do prazo. Havia muita ansiedade envolvida, a ansiedade que todo novo projeto prestes a ser lançado provoca.

A Samurai foi lançada no dia 15 de novembro de 2015, em Belo Horizonte, no FIQ. Era a primeira vez que eu ia a um evento de quadrinhos como roteirista, e carregar caixas com meus livros impressos dentro delas foi um divisor de águas. A expectativa pela publicação era grande por parte dos leitores — eu tinha feito barulho e chamado a atenção de algumas pessoas, nada mal para uma primeira publicação. Mas agora que o quadrinho estava impresso, eu teria que encarar um novo aprendizado: ouvir o que os leitores acharam da história.

Escrever, produzir, tornar público; uma equação complexa para qualquer artista. Depois de quase um ano trabalhando no projeto, é claro que eu queria que A Samurai fosse bem recebida, tanto pelos leitores quanto pela crítica especializada. Naquele momento, A Samurai era o trabalho da minha vida e eu tinha dado o meu melhor nele — o que eu ainda não sabia era que nada disso importava aos olhos do mundo. A verdade é que parte do trabalho artístico é mascarar, quando não ignorar, as dificuldades no caminho.

Após três lançamento da HQ — no FIQ, na CCXP e no Tributo à Claudio Seto — e do envio das recompensas aos apoiadores da campanha, em janeiro de 2016 A Samurai começou a ser distribuída nas bancas de todo o Brasil. Eu estava orgulhosa pelo que havia conquistado, mas ao mesmo tempo comecei a temer o que poderia vir depois — afinal, aquele era meu primeiro roteiro; eu o havia escrito como um experimento e não como um produto vendável.

Nos extras da edição impressa, escrevi um texto explicando que eu via A Samurai como uma narrativa wabi-sabi. Na cultura japonesa, wabi-sabi é um conceito que valoriza a beleza da imperfeição — pequenas rachaduras, marcas de uso, assimetrias de objetos feitos à mão, etc — que tornam as coisas únicas no mundo. Continuo apostando nesse conceito e acredito, ainda hoje, que a beleza de A Samurai reside nesse frescor de querer fazer uma obra sincera com quem eu era, ao invés de fazer uma obra perfeita.

Recebi o primeiro review d’A Samurai entre o FIQ e a CCXP, e fiquei bem animada com a receptividade que transpareceu do texto. A Isabella Simões, do site Delirium Nerd, não só tinha compreendido a história como captado suas nuances, por isso senti como se tivesse sido lida de verdade. Esse review e outros feedbacks dos leitores me deram segurança para começar a sonhar com algo que até então eu não havia cogitado: transformar a história da Michiko em uma trilogia. Nesse clima, em janeiro de 2016 eu comecei a escrever um novo roteiro, que tinha o nome provisório de A Samurai 2. Assim como eu, todos os ilustradores também estava animados com o projeto e aceitaram meu convite para participar da continuação.

Uma das grandes ilusões de um artista em início de carreira é acreditar que basta realizar um projeto para saber o que esperar dos próximos. Apesar dos conhecimentos acumulados serem úteis, nenhuma produção é igual à outra — e eu aprenderia isso com A Samurai: Yorimichi. Os golpes viriam um a um, começando pelo meu primeiro review negativo.

Em maio de 2016, um mês antes de lançar a campanha para financiar a produção de A Samurai: Yoricmihi, recebi um review negativo vindo da crítica especializada e aquilo me derrubou. Muitos escritores, em seus relatos pessoais, falam sobre como lidar com críticas negativas — e eu lidei mal. O problema do review não é ele ser negativo (eu inclusive concordo com alguns pontos), mas o fato do redator não ter levado em conta que eu era uma estreante e tinha mesmo publicado uma HQ imperfeita. No texto, fica claro, que o redator escreveu sua opinião pautado na expectativa gerada pela visibilidade que o projeto havia alcançado.

Uma crítica negativa publicada em um site de renome pode acabar com a confiança de qualquer autor — e foi nesse clima interno que lancei a campanha para financiar A Samurai: Yorimichi. Mais uma vez, precisaria de vinte e quatro mil reais para produzir a HQ; mais uma vez acreditei que seria fácil, só que agora porque achei que os apoiadores de antes apostariam no projeto. Mas, é claro, nem todos voltaram, e o que foi difícil no ano anterior, seria quase impossível agora.


“Bastidores de Produção” é um podcast produzido pela Têmpora Criativa. A primeira temporada é parte do projeto A Samurai: Sujimichi, um PROJETO REALIZADO COM RECURSOS DO PROGRAMA DE APOIO E INCENTIVO À CULTURA – FUNDAÇÃO CULTURAL DE CURITIBA, DA PREFEITURA MUNICIPAL DE CURITIBA E DO MINISTÉRIO DO TURISMO.

O texto e a narração são de Mylle Silva; já a edição e a música são de Cássio Menin. Visite temporacriativa.com e conheça mais sobre o nosso trabalho.