Produzindo a HQ A Samurai — Episódio 1

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Oi, eu sou a Mylle Silva e esta é a série “Bastidores de produção”, na qual falarei sobre produção cultural.

Nesta temporada, contarei sobre a minha experiência mista de produção e aprendizado durante a execução do projeto A Samurai.

A Samurai é uma série de história em quadrinhos que conta a saga de Michiko, uma jovem poderosa que se torna samurai para lutar pelo sonho de encontrar sua família biológica.


Me tornar roteirista de histórias em quadrinhos foi um desses rompantes que rendeu frutos. Comecei a escrever o roteiro da HQ A Samurai em dezembro de 2014, assim que voltei da Comic Con Experience, conhecida como CCXP. Mas, quando participei dessa primeira edição do evento como assistente, não imaginava que no ano seguinte voltaria com uma história em quadrinhos escrita por mim e ilustrada por oito quadrinistas mega talentosos.

Tive contato com o mercado independente de quadrinhos em 2012, e conheci muitos artistas que faziam parte dele visitando eventos em Curitiba, São Paulo e Belo Horizonte. Eu tinha voltado há pouco tempo de um intercâmbio no Japão e estava decidida a investir na minha carreira como escritora, então ver todas aquelas pessoas trabalhando em seus projetos autorais me fez acreditar que eu não estava sozinha com o meu desejo — bastava começar a trabalhar.

Foi nesse clima que olhei o Artists’ Alley da CCXP e comecei, ali mesmo, a delinear quais artistas chamaria para o meu novo projeto. Mesmo sem saber ainda sobre o que escreveria, eu sabia a quem chamar, fosse por afinidade com a pessoa ou com o seu traço.

Escrevi a primeira versão do roteiro em um caderno, mais ou menos um capítulo por dia. Era a primeira vez que eu escrevia uma história nesse formato e eu não me preocupei muito com público, direcionamento nem nada disso. Tudo o que fiz foi pegar uma personagem que eu havia criado em um conto, transformá-la em uma mulher samurai e adicionar vários elementos que eu curtia de outras histórias — o resto veio naturalmente.

É claro que houve um elemento na HQ que inseri desde o início do projeto de maneira bastante consciente: a homenagem ao quadrinista Claudio Seto. Seto foi a primeira pessoa a publicar mangás no Brasil e uma de suas obras mais conhecidas chama-se O Samurai. Publicada pela editora Edrel na década de 1970, O Samurai tinha traço gekiká, com apelo para leitores adultos, e muitas vezes é comparado com Lobo Solitário, ilustrado por Goseki Kojima.

Convivi com Claudio Seto de 2006 a 2008. Apesar de na época ele não trabalhar mais como quadrinista, obtive alguns bons ensinamentos do mestre, ensinamentos que são muito mais valiosos do que simplesmente como fazer quadrinhos — mas esse é um assunto para outro momento.

Por esses e outros motivos, decidi fazer da história em quadrinhos A Samurai em uma grande homenagem a Claudio Seto. Além da temática em si, incluí outras duas homenagens: a criação do personagem Mestre Seto, o mentor da Michiko ao longo da jornada dela como aprendiz de samurai, e a grafia do título. O artigo O, do título da história em quadrinhos O Samurai é aparece dentro de uma lanterna japonesa; então, para fazer uma referência visual direta ao design escolhido por Seto, fiz questão de colocar o artigo A no título de A Samurai também dentro de uma lanterna japonesa.

Enquanto escrevia o roteiro, meu objetivo era criar uma narrativa que fosse interessante para o leitor. Eu sabia que o puro empirismo não me levaria longe, então decidi começar a estudar. Passei a ler tudo que encontrava sobre estruturas narrativas, sobre como fazer roteiros para histórias em quadrinhos e sobre todos os assuntos que estivessem relacionados. Eu queria publicar uma história boa, duradoura.

O tempo de escrita do roteiro não foi muito longo. Em fevereiro eu já tinha a versão final da história em mãos e estava pronta para convidar oito ilustradores para o projeto. Escolhi chamar vários quadrinistas e não um porque eu queria otimizar a produção. Junto disso, defini uma cor predominante para capítulo. Já que o traço mudaria, queria deixar a mudança e o clima claros também nas cores. Afinal, eu estava experimentando uma nova linguagem e queria levar meu experimento a um novo nível.

Eu tinha duas listas de artistas: uma com o “time dos sonhos” e outra com possíveis substitutos. Na lista principal coloquei desde amigos de longa data até ilustradores de quem eu só tinha comprado um postal três meses antes, na CCXP.

Para minha sorte, todos os quadrinistas da minha lista principal aceitaram participar do projeto: Yoshi Itice, Vencys Lao, Guilherme Match, Mika Takahashi, Bianca Pinheiro, Herbert Berbert, Leonardo Maciel e Gustavo Borges — a ordem que decorei por causa da aparição.

Algumas pessoas me perguntam como consegui reunir esses nomes em um mesmo projeto. Acredito que foi um misto de sorte com diálogo aberto. Desde o início da conversa, deixei claro que se tratava de um trabalho autoral, que nós trabalharíamos em equipe e que eu tinha um cache bem específico (e limitado) para o projeto.

Com o aceite dos ilustradores, outras duas perguntas surgiram: de quanto dinheiro precisaria e como consegui-lo.

Pensar sobre dinheiro e montar uma planilha não só é necessário, mas essencial para que qualquer projeto artístico dê certo. Para fazer acontecer a HQ impressa d’A Samurai eu precisava de dez mil reais para bancar a impressão de mil exemplares; cerca de dez mil reais para pagar o cache dos artistas; uns dois mil reais para os correios e somar aos custos os 13% que ficam com a plataforma de financiamento.

Somando tudo, eu precisaria juntar vinte e quatro mil reais para fazer o projeto acontecer — sem dúvida, um valor assustador para um roteirista estreante. No entanto, eu estava bem acompanhada. Ter esses oito ilustradores no projeto atrairia os apoiadores, certo? Ao menos foi nisso que eu acreditei, no início.

A campanha entrou no ar no início de abril de 2015. Lembro-me da alegria de ver as pessoas apoiando a HQ, e ali tive a certeza de que eu não era a única a apostar naquele sonho, naquele desejo de fazer surgir a história d’A Samurai no mundo. Devo ter juntado entre 10% e 15% do valor na primeira semana, uma verdadeira felicidade. No entanto, depois disso as coisas começaram a esfriar e minha ansiedade foi às alturas.

Costumo dizer que fazer uma campanha de financiamento coletivo é como viver uma TPM constante. No mesmo dia, é preciso encarar picos de felicidade e de depressão sem perder o equilíbrio. É preciso acreditar na campanha, do primeiro ao último segundo, com a mesma empolgação, a mesma energia e a mesma certeza de que tudo dará certo no final. Mas ali, durante a minha primeira campanha de quadrinhos, eu não tive maturidade para compreender isso. Aprendi, assim, meio que no susto, que a pessoa mais importante para uma campanha no Catarse é o realizador — ou seja, a pessoa que propõe o projeto e o coloca no ar. Uma boa ideia (e eu acreditava muito na minha ideia) e uma equipe maravilhosa, por si sós, não fazem campanha. Alguém precisa fazer a campanha, e esse alguém é quem está na linha de frente.

Foram 55 dias de campanha até que o projeto d’A Samurai atingisse a meta. Quase oito semanas de incertezas, de sorteios, de eventos paralelos para juntar dinheiro, de conversar com as pessoas sobre o que é o quadrinho, de montanha-russa de emoções até que, no dia 03 de junho de 2015 A Samurai deixou o mundo das ideias para embarcar na realidade.

Rever hoje como essa caminhada se deu só reforça a minha crença de que as histórias nascem para ressoar ao longo do tempo. E você, ouvindo esse podcast até aqui é a prova disso. A Samurai me dá felicidade até hoje sempre que alguém se interessa pela história e a lê; sempre que alguém a indica; sempre que alguém vem falar comigo sobre ela; sempre que a releio e me orgulho por ter levado o projeto até o fim.

Desde a elaboração do roteiro até a conclusão da campanha de financiamento coletivo, foram seis meses de trabalho — e seriam necessários mais seis meses até que A Samurai chegasse aos quase 500 apoiadores do projeto. E, com uma ajudinha da sorte, ela chegaria a muito mais leitores do que esperava.

Pouco antes do final da campanha, uma editora entrou em contato comigo e propôs imprimir mais cinco mil exemplares d’A Samurai para distribuí-la nas bancas de todo o Brasil. Em troca, eu receberia 10% das vendas nas bancas, então eu não tinha nada a perder, só a ganhar. Ao aceitar a proposta de distribuição, percebi que A Samurai tinha se tornado algo maior do que um primeiro quadrinho, algo que até hoje não sei nomear. Mesmo antes de ver as páginas prontas, a Michiko, protagonista da história, havia ganhado vida. Mas, antes de ter a edição impressa em mãos, seria preciso vencer o maior desafio da produção: o prazo.


“Bastidores de Produção” é um podcast produzido pela Têmpora Criativa. A primeira temporada é parte do projeto A Samurai: Sujimichi, um PROJETO REALIZADO COM RECURSOS DO PROGRAMA DE APOIO E INCENTIVO À CULTURA – FUNDAÇÃO CULTURAL DE CURITIBA, DA PREFEITURA MUNICIPAL DE CURITIBA E DO MINISTÉRIO DO TURISMO.

O texto e a narração são de Mylle Silva; já a edição e a música são de Cássio Menin. Visite temporacriativa.com e conheça mais sobre o nosso trabalho.